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10/10/2010 // Bem-vindos a bordo






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09/09/2009 // Visite

Acesse AQUI a publicação interplanetária mais adorada pelas estrelas e pelos planetas

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27/08/2008 // A camarilha quer mais teta

AS REFORMAS DE HUGO MORALES DA SILVA

Elio Gaspari

Estão a caminho do Congresso dois projetos do comissariado petista que desfigurarão o sistema político brasileiro, fortalecendo burocracias sindicais e partidárias, à custa do voto e do bolso dos cidadãos.

O primeiro é a substituição do imposto sindical por um negócio chamado de 'contribuição sindical'. O segundo é o reaparecimento da proposta do voto em lista fechada para a Câmara dos Deputados.
Caso essas mudanças aconteçam, o comissariado petista (com a ajuda de alguns grão-tucanos, no caso do voto de lista) terá imposto mudanças dignas da jurisprudência dos companheiros Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, com suas filosofagens sobre novas cla$$e$ dirigentes.
Atualmente, cada trabalhador do mercado formal entrega pelo menos um dia de seu suor à máquina sindical. Algo como 0,26% de sua renda anual. Em 2007, isso significou um montante de R$ 1,3 bilhão, noves fora os penduricalhos que os sindicatos cobram. A CUT de Nosso Guia ficou com R$ 55 milhões e a Força Sindical do inigualável Paulinho terá R$ 15 milhões.

Com a mudança, a tunga crescerá. A CUT já disse que aceita um teto de 1%. Aquilo que a ditadura protofascista de Getúlio Vargas fixou em um dia de trabalho para financiar a atividade de sindicatos apelegados virará algo entre três e quatro dias de trabalho. A mordida, aprovada em assembléias, irá direto ao contracheque, sem levar em conta se o trabalhador filiou-se ao sindicato ou sequer sabe onde fica sua sede.

Esse ervanário público equipará financeiramente as centrais como fontes de manipulação política. (Por exemplo: no ano passado, meia dúzia de sindicalistas pararam o metrô de São Paulo em nome de uma arcana discussão tributária.)
Caberá ao Congresso decidir o tamanho e a forma da mordida. Pode-se decidir que qualquer coisa além dos 0,26% do imposto sindical deva ser cobrada só a quem queira pagar. Se o povo pode eleger seu presidente, deve ter também o direito de escolher, individualmente, o tamanho de sua contribuição ao sindicato.

A segunda reforma destinada a degenerar o sistema político brasileiro é a reapresentação da proposta do voto de lista para as eleições à Câmara dos Deputados. Hoje o cidadão pode votar numa pessoa (Delfim Netto, em São Paulo, por exemplo), mas como a votação dele ficou abaixo do quociente de seu partido, os votos dados a Delfim acabaram na conta de outro deputado, que ficou mais bem colocado (Michel Temer, no caso). Pode-se dizer que o eleitor de um acabou elegendo outro, mas é indiscutível que quem quis votar em Delfim, em Delfim votou, mesmo não conseguindo elegê-lo.

O voto de lista acaba com essa trabalheira. O partido enumera os seus candidatos, de acordo com a preferência da máquina, a choldra vota no partido e as cadeiras são preenchidas na ordem decrescente da lista.

Juntando-se as duas reformas numa só, consegue-se o seguinte: Hugo Morales da Silva é sindicalista numa categoria com 5 mil trabalhadores, dos quais só mil são sindicalizados. Numa eleição a que compareceram 500 colegas, ele se tornou presidente da guilda, com 300 votos. No congresso da central a que seu sindicato está filiado, ele foi indicado para a tesouraria do conglomerado. Cortejado por um partido, Hugo foi para o terceiro lugar na lista de candidatos a deputado. Veio a eleição e ele faturou o mandato, com 300 votos.

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26/08/2008 // Saldo d'água

Pouca medalha, muita lágrima

Sérgio Augusto - Estadão

Sai a "pátria de chuteiras", entra a "pátria do lenço". Chorou-se tanto nos Jogos de Pequim, que a Kleenex e a Softy's deveriam pensar seriamente em investir pesado nas próximas Olimpíadas. Se o choro fosse uma modalidade esportiva, o Brasil teria ultrapassado a China e os EUA no ranking de medalhas. A rigor, só os vitoriosos e os notoriamente prejudicados (como a Fabiana Murer) deveriam debulhar-se em lágrimas. Tudo bem, César Cielo exagerou, mas os vitoriosos podem tudo: seu pranto é sobranceiro, catártico, lustral.

Alguns "explicadores" do Brasil e do temperamento de sua gente, como Manoel Bomfim e Vianna Moog, já haviam percebido nossa tendência ao desânimo fácil, à lamentação, à exibição do sofrimento, mas desta vez nos superamos. Choramos em todas as circunstâncias previstas numa competição: nas classificações e desclassificações, nas vitórias e derrotas. Fizemos de Pequim 2008 um interminável lacrimatório.

Ana Paula, do vôlei de praia, abriu tanto o berreiro, lembrando do filho e lastimando ser aquela sua última Olimpíada, que a parceira Larissa não se conteve: "Pára de chorar, mulher! Vai acabar derretendo!" Ana Paula afinal não derreteu, mas Jade Barbosa só não virou uma pocinha porque o piso do ginásio onde tombou de joelhos não era impermeável. Campeã absoluta do chororô, Jade já entra em cena com o semblante de quem está indo para o cadafalso: assustada, o olhar jururu, emocionalmente derrotada. "Ainda bem que acabou", desabafou a ginasta carioca quando seu calvário chegou ao fim. Uma atleta olímpica não pode falar assim, como se fosse uma donzela de M. Delly acossada por um vilão de cinema mudo.

O entusiasmo e a autoconfiança podem e costumam ser úteis numa competição, a emotividade incontrolada, não. O fator emocional também prejudicou os nossos judocas, conforme admitiu, tardiamente, o coordenador técnico da equipe, Ney Wilson. Um deles, Eduardo dos Santos, chegou a pedir desculpas ao pai e à mãe, como um garoto que levou bomba depois de varar noites com a cara enfiada nos livros.

Abusando do que poderíamos chamar de humildade onipotente, Diego Hypólito pediu "desculpas ao povo brasileiro" por seu fiasco no tablado do National Indoor Stadium de Pequim. Talvez tenha sido o momento mais patético do Brasil nos Jogos, pau a pau com o jogo da seleção do Dunga contra a Argentina. Ora, ora, se Hypólito pede desculpas a 183 milhões de brasileiros por não ter levado uma medalha, Michael Phelps, mutatis mutandis, poderia cogitar de assumir a presidência dos EUA, qualquer que seja o resultado das eleições de novembro.

"Somos um povo muito emotivo", tentou justificar um repórter da Sportv, secundado, pouco depois, por uma propaganda da Justiça Eleitoral protagonizada por um panaca que chora até quando ouve tocar seu celular. O anúncio é idiota, mas acertou na pinta; ao contrário de outros, que erraram feio apostando tudo em Hypólito e Daiane dos Santos ou relegando o medalha de ouro César Cielo a um canto da imagem, como fez a Samsung. Acontece aos melhores anunciantes. Quem poderia prever que o ídolo chinês Liu Xiang ficaria fora da competição? Azar da Nike, da Coca-Cola e do Visa.

O fato de sermos um povo muito emotivo não dá à nossa televisão o direito de apelar com tamanha insistência para a pieguice. A menos, claro, que ela tenha abdicado totalmente de qualquer obrigação educativa. Alguns lances do emocionante terceiro set da semifinal do Brasil contra a Itália, no vôlei masculino, nos foram sonegados porque a Globo e a Sportv desviaram suas transmissões para o cerimonial de premiação de Maurren Maggi, ouro em salto em distância, e lá ficaram além do suportável para que não perdêssemos mais um vale de lágrimas, mais um show de emoções familiares, e esta pérola de informação sentimentalóide: "Chora a mãe de Sofia". Sofia é a filha de colo da campeã. Os diabéticos deveriam entrar com um processo.

Quando o meloso nos dava uma folga, as platitudes tomavam conta. Comentários ufanistas, típicos do que Daniel Piza chama de "transmissão estilo Pacheco" e eu prefiro chamar de "estilo Galvão Bueno", mesmo, desafinavam do excelente trabalho de vários repórteres. Para que contemporizar, passar a mão na cabeça, invocar forças superiores, alimentar vãs esperanças? Ao tratar da derrota da seleção feminina de futebol do Brasil para o time dos EUA, o Jornal Nacional aludiu a "lances geniais" das "nossas meninas", como se jogadas maravilhosas das jogadoras brasileiras tivessem sido a tônica de um jogo que, na verdade, se caracterizou pelo excesso de dribles improdutivos, chutões a esmo, passes bisonhos e fadiga física e psicológica de Marta & cia.

Aliás, por que insistir no, por certo carinhoso, mas paternalístico, "meninas do Brasil"?

Volta e meia alguém se referia à origem humilde e à infância difícil de alguns de nossos atletas, usando-as como desculpas para um tropeço, como se na Jamaica, no Quênia, no Zimbábue, a situação fosse diferente. A Jamaica, imbatível nas pistas de corrida, dona de 30 medalhas quando o Brasil contabilizara apenas 8, tem um PIB que equivale à metade do PIB do Maranhão. O segredo do seu sucesso, das suas cinco medalhas de ouro? Investimento maciço na formação de atletas. A maioria das escolas jamaicanas tem um programa de pista em seu currículo.

A China não serve de exemplo, dada a militarização de sua educação esportiva, mas a Jamaica serve. Seu modelo é bem mais descontraído, por assim dizer, que o cubano, e muito mais acessível que o dos EUA, onde os atletas de todas as modalidades começam a ser solidamente formados nas escolas e despontam para o profissionalismo (e as Olimpíadas) nas universidades, com muita grana por trás. Uma vez mais ficou provado que, sem uma revolução no ensino e uma política conseqüente de apoio ao esporte, continuaremos aquém de nossas possibilidades fora dos gramados e das quadras de vôlei. Até o Dunga deve saber disso.

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26/08/2008 // Textos até sexta

Call for papers
Prorrogação do prazo de incrição: 29/08/2008


Caros(as) colegas,

A ABCIBER - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM CIBERCULTURA comunica a prorrogação do período de inscrição de trabalhos para participação nos painéis temáticos de seu II Simpósio Nacional, a ser realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no período de 10 a 13 de novembro próximo.
O prazo termina em 29/08/2008.
As normas para a remessa de textos e demais informações relevantes estão disponíveis no site do evento (www.cencib.org/simposioabciber), no menu Call for papers. (Para acesso direto, clique aqui.)
Apreciaria que dessem ampla divulgação do documento em seus Grupos de Pesquisa, Programas, Departamentos e Universidades.
Especiais saudações,

Eugênio Trivinho
Presidente da ABCiber
Coordenador Geral da Comissão Organizadora

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25/08/2008 // Petronosso

O PETRÓLEO É VOSSO

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND - Direto da Redação

Quem acompanha nestes dias as informações e comentários sobre a exploração das reservas petrolíferas do pré-sal constata que há um clima de nervosismo na turma do “petróleo é vosso”. De Arnaldo Jabor a Miriam Leitão, passando por Carlos Alberto Sardenberg e outros que ocupam o espaço midiático conservador, todos foram unânimes em questionar os defensores de a riqueza do pré-sal ficar com os brasileiros e não ser diluída nas mãos de empresas multinacionais do setor.

Trocando em miúdos: tanto eles, colunistas, como seus superiores hierárquicos, querem que as grandes empresas petrolíferas tomem conta das riquezas de uma vez por todas. E chegam até a advertir Lula, que pelo menos na retórica está defendendo a preservação da reserva petrolífera sob o controle brasileiro.

A jóia do pensamento pró-multinacional ficou por conta de Sardenberg ao afirmar que “esse negócio de petróleo é nosso”, “riqueza nas mãos dos brasileiros” é, pasmem, “coisa do passado”, “populismo”.

O hoje sócio do Teatro Casa Grande, David Zilberstajn, o tal genro nomeado por Fernando Henrique Cardoso para a Agência Nacional de Petróleo e que ao se reunir com representantes de multinacionais petrolíferas cunhou a frase “o petróleo é vosso”, está de volta na defesa de interesses antinacionais. Na era FHC, Zilberstajn, o genro, tornou-se um dos mais ardorosos defensores da entrega da estatal brasileira de petróleo para os acionistas estrangeiros, que hoje chegam a 60%.

Os mesmos propulsores desta privatização pelas beiradas são os veementes defensores de que as riquezas energéticas do pré-sal sejam exploradas pelas multinacionais e pregam a continuidade dos leilões de petróleo. De saída, sem qualquer tipo de discussão mais aprofundada, a tal patota se colocou contra a criação de uma estatal para cuidar melhor desta riqueza.

Aliás, esta turma pós-moderna não traz nada de novo. Ela sim é “coisa do passado”, uma vez que os argumentos hoje apresentados reproduzem o que a mídia conservadora nos anos que antecederam a criação da Petrobrás (final dos anos 40 e início dos 50) dizia.

Claro, não adianta nada criar uma estatal de um lado e do outro conceder as facilidades para que a maior parte da riqueza fique com as multinacionais, como fez FHC. Mas a bancada do “petróleo é vosso” nem quer ouvir falar em estatal, ainda por cima se ela for controlada pelo povo brasileiro e não por quem o grupo defende e possivelmente é subsidiado.

Nenhum dos tais analistas foi capaz de associar a reativação da IV Frota dos Estados Unidos com as riquezas do pré-sal. Na verdade, tanto a Secretária de Estado, Condoleezza Rice, o vice Dick Cheney e o próprio presidente George W. Bush só agem em conformidade com as empresas petrolíferas que estão de olho no nosso litoral. O trio sinistro inventou vários argumentos para justificar a reativação IV Frota. Chegaram até a falar em “ação humanitária”.

Outra questão que está ocupando grandes espaços na mídia é a decisão, possivelmente nesta próxima quarta-feira(27), do Supremo Tribunal Federal sobre a reserva indígena de Raposa Terra do Sol, se ela seguirá contínua ou dividida em ilhas. A elite brasileira, preconceituosa e racista por natureza, apresenta argumentos pífios em defesa da divisão que só confirmam o juízo formado ao longo do tempo sobre os indígenas brasileiros. Enquanto eles eram apresentados apenas como grupos folclóricos e na verdade como cidadãos de segunda classe próximos da extinção, as elites os aceitavam de bom grado e até criaram um dia do calendário destinado aos índios. Mas a partir do momento em que eles tomaram consciência de seus direitos e se organizaram no sentido de ocupar espaços nos restantes 364 dias do ano como cidadãos brasileiros integrantes de uma etnia, aí a coisa mudou de figura. Os índios se transformaram em “marionetes” de governos estrangeiros “ameaçadores de nossa soberania”.

E cá entre nós, como é lamentável ver militares tomando a defesa da patota do agronegócio, representada em Rondônia pelos arrozeiros, e silenciarem quanto a entrega de mão beijada da Amazônia para as multinacionais. Por que o comandante da Amazônia, General Augusto Heleno Pereira, em vez de destilar preconceito contra os indígenas não chama a atenção sobre a facilidade que os governos brasileiros, desde a época da ditadura, concedem às multinacionais naquela área? As terras dos indígenas brasileiros são preservadas e pertencem à União, mas em áreas onde políticos corruptos predominam, as multinacionais são sempre favorecidas.

Resta agora aguardar a decisão dos ministros do STF, se julgarão o pleito desprovidos de preconceito ou cederão às pressões dos arrozeiros.

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25/08/2008 // O homo link

Derrick deKerckhove é Professor do Departamento de Letras da Universidade de Toronto(Canadá) e Diretor do McLuhan Program in Culture and Technology/Universidade de Toronto. Trabalhou por mais de dez anos diretamente com Marshall McLuhan, como, co-autor, tradutor e assistente. É considerado um dos principais herdeiros intelectuais de McLuhan, tendo avançado suas pesquisas sobre mídias em torno das novas tecnologias de comunicação. Na Universidade de Toronto, leciona há anos a disciplina "Media, Mind and Society" (Mídia, Mente e Sociedade), onde discute os impactos e efeitos das novas tecnologias de informação nas práticas comunicacionais, cognitivas e culturais contemporâenas. É autor de inúmeros livros, dentre os quais "Brainframes: Technology, Mind and Business"(Bosch&Keuning, 1991), "The Skin of Culture"(Somerville Press, 1995), "Connected Intelligence" (Somerville, 1997), "The Architecture of Intelligence"(2000), dentre outros.

Entrevista com Derrick deKerckhove, feita por Vinícius Andrade Pereira, professor do PPGC-UERJ e da ESPM, para O Globo. 21/08/2008

- Vamos começar considerando o impacto das novas tecnologias nos modos como os jovens estão consumindo entretenimento midiático... O que o Sr destacaria neste contexto?

O telefone celular está distribuído mundialmente exceto, talvez, para jovens de regiões extremamente pobres. SMS (Short Message Service) é barato e tem uma linguagem e, mesmo cultura de fundo, desenvolvida do estilo telegráfico de se digitar mensagens com o polegar. Textos que podem até ser mais elaborados, mas ainda assim curtos, permitidos por equipamentos mais sofisticados.
Há também os games, os jogos eletrônicos. Há muitos deles, formando a maior indústria de entretenimento atualmente - maior mesmo que a própria indústria cinematográfica - que deve ser interativa, porque o entretenimento na sua maior expressão é em tempo real. Isso significa que a indústria do entrentenimento hoje, sob a égide das novas tecnologias, deve ser participativa, interativa, conectada e imediata. Formas de entretenimento com conteúdos tradicionais como filmes, séries de tv e mesmo livros continuam a ser consumidas, mas, a ação real se dá para os jovens dentro de uma perspectiva do "onde estou", não em alguma ficção. Nesse sentido, talvez "consumo" não seja a palavra exata. E mais, existem ainda as mídias sociais, tipo Facebook, Orkut e MySpace, e mesmo os metaversos (Second Life, por exemplo) que promovem novos "playgrounds" para os jovens. De uma maneira geral as pessoas parecem não desfrutar de softwares sociais para interconexões como a garotada, que está no auge dessa onda.

- Como as novas tecnologias estão mudando as maneiras das pessoas se informarem hoje em dia?
Cada um de nós ocupa o centro de uma esfera midiática eletrônica que nos apresenta todo tipo de informação, todo tempo em qualquer lugar. McLuhan propôs que o meio é a mensagem, o usuário é o conteúdo. Isso é verdade: nós estamos no centro de uma completa imersão nas mídias e nos ambientes de informação. As pessoas estão criando suas próprias redes de informação, das mais imediatas (família e amigos), às globais, através de blogs, comunidades virtuais e de softwares sociais. Podemos dizer que as pessoas criam suas próprias informações coletivamente em sites como a Wikipedia, por exemplo. Criam tais informações de modo individual e coletivamente através de sites de tagging social como o del.icio.us ou o Flickr, por exemplo. O conteúdo, o formato e a distribuição da informação mudaram também. As informações são multimídia, hipertextuais, etiquetadas (tagged), linkadas e interativas.

- Compreendendo toda essa reflexão dentro do que podemos chamar de ecologia da informação, o que devemos considerar quando focamos as universidades dentro do contexto da cultura digital?

Várias reformas deveriam ser empreendidas a fim de permitir às universidades se beneficiarem das redes sociais digitais, adaptando seus currículos e métodos de ensino, do mesmo modo que seus métodos de avaliação, pesquisa e publicação. Mas as universidades não estão com pressa em se integrarem plenamente às novas mídias. Sim, é verdade que existem práticas tais como conteúdos de disciplinas que são dispostos da forma de podcasting, e especulações em torno da Wikiversity, mas os estudantes ainda têm que esperar o fim do lento processo de publicação das suas teses antes que possam postular a um espaço profissional mais expressivo, dentro dos meios acadêmicos. Parece injusto manter jovens doutores estudiosos privados de uma publicação on-line e, desse modo, reduzir as chances de conquistarem mais espaços de atuação, até que seus trabalhos sejam publicados no ritmo de lesma, típico da publicação em papel.

- O Sr. tem viajado por todo o mundo, dando aulas e palestras em diferentes países como os EUA, a Itália, o Brasil, o Japão, dentre outros. O que o Sr. destacaria como importante considerando os diferentes modos como as novas tecnologias estão impactando essas culturas?

Penso que o que é importante para todas as sociedades e também para todas as comunidades locais é o acesso e a garantia de liberdades civis. O fornecimento de comunicação deveria ser uma das responsabilidades principais do Estado, tanto quanto transporte, saúde, segurança e outros serviços básicos. Contudo, observamos interesses variados quanto à adoção de tecnologias de informação e de comunicação por diferentes países. Testemunhamos, por exemplo, por muito tempo - e em vão - a resistência da França contra a Internet para proteger o Minitel. E então, no começo dos anos 90, sua rápida recuperação no que diz respeito às taxas de adoção da Internet. Ou o caso da Itália, onde o acesso à Internet ainda está em um baixo patamar, de 31% da população, quando comparado aos 78% na Inglaterra. A conseqüência de qualquer retardo na adoção dessas tecnologias é a promessa de um crescimento econômico menor e mais lento. E
isso se dá porque a capacidade intelectual de um país não está sendo alimentada. É tão contraproducente para um Estado frear ou resistir através das suas leis formas de conectar comunidades, quanto concentrar todas as energias da nação em uma única indústria como a do petróleo. Você precisa de ambos, músculos e cérebro, para por em movimento um país.

- O que o Sr. diria aos pais que estão educando seus filhos hoje? Quais seriam os limites e os direitos de crianças que estão lidando todo o tempo com diferentes tipos de mídias?

Este é o maior desafio da educação. Mas é difícil encontrar professores que irão educar seus alunos para um uso crítico da web. As mídias estão mudando tão rapidamente que as habilidades requeridas para lidar com elas parecem, desde os primeiros dias da web, reservadas às gerações mais novas. O que se pode ver, por exemplo, na idade de Marc Andressen, 19 anos, quando desenvolveu o primeiro browser, o MOSAIC. O único modo dos pais intervirem eficientemente junto às "crianças on-line" é partilhar a experiência com elas de vez em quando, mostrando através de exemplos, usos adequados das mídias e se distanciando um pouco para ver como as coisas vão... dando uma passo atrás para poder ver o quadro como um todo. Como direitos das crianças, acho que são os mesmo que os dos adultos. Quero dizer, você não invade a privacidade delas mais do que como você faz com um vizinho...(rs) O mundo on-line é uma extensão e não uma contradição ao mundo físico. Mas, como em todas as coisas, há uma aceleração e multiplicação violenta dos efeitos de qualquer meio e, no caso específico da Internet, as possibilidades de se escolher direções erradas estão multiplicadas.

- O que o Sr pensa do papel que teriam, no Brasil, formas de governo eletrônico e móvel como, por exemplo, o uso de celulares para acesso a serviços básicos de cidadania, ou mesmo para votação?...

Eu não conheço a cena política brasileira o suficiente para falar com propriedade sobre isso... Mas, posso afirmar com certeza que, se o Brasil quer alavancar sua economia e assegurar o seu papel como interlocutor no primeiro mundo, como está começando a acontecer, o governo brasileiro deveria considerar a possibilidade de conectar todo o país, começando com grandes concentrações da população como, por exemplo, provendo conectividade de graça para algumas favelas escolhidas sob certas condições, a fim de encorajar o desenvolvimento e a maturação destas comunidades.

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25/08/2008 // Uma imagem e uma idéia para uma bela semana

"O profeta vê os anjos, mas o incrédulo os faz serem vistos pelo público." - Os jornalistas - Honoré de Balzac

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22/08/2008 // Mais uma oportunidade para publicar

A Revista Logos, do PPGC-UERJ, constitui um espaço arejado para reflexões teórico-metodológicas sobre práticas comunicacionais ligadas a dispositivos relacionais e midiáticos na atualidade. A Logos conta com a colaboração de pesquisadores nacionais e estrangeiros, além de editores convidados, e publica artigos inéditos resultantes de pesquisa científica e/ou resenhas.
Atualmente está recebendo contribuições para duas edições: uma sobre Tecnologias e Sociabilidade e outra sobre Tecnologias e Subjetividade. A primeira dará ênfase a estudos e análises de processos relacionais e práticas comunicativas no campo da cibercultura, dos espaços urbanos, das redes sociais e dos fenômenos ligados à mobilidade. A segunda reunirá trabalhos de pesquisa que privilegiem a análise e a articulação entre tecnologias, comunicação e produção de subjetividade, incluindo processos e práticas de produção social de identidades, modos de vida e criação artística, ligados aos diversos dispositivos técnicos, textuais, imagéticos ou multimídia.
Serão aceitos textos inéditos em Português, Inglês, Francês e Espanhol. Os textos deverão ser encaminhados para os seguintes endereços eletrônicos:
fatimaregisoliveira@gmail.com;
azert46@hotmail.com

Prazos para o envio:

Logos no. 29 – 2o. semestre de 2008 – Tema: Tecnologias e Sociabilidade

Até 30/09/2008

Logos no. 30 – 1o. semestre de 2009 – Tema: Tecnologias e Subjetividade

Até 30/02/2009

As normas de publicação podem ser encontradas em:
http://www.logos.uerj.br

Atenciosamente,

Fernando Gonçalves (Editor Logos - Tecnologias e Sociabilidade) e Fátima Régis (Editora Logos - Tecnologias e Subjetividade)

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21/08/2008 // Fronteiras

A Revista Fronteiras - Estudos Midiáticos do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos está com prazo aberto para submissão de artigos para sua próxima edição a ser publicada em dezembro de 2008. O prazo para envio de artigos encerra-se no dia *10 de setembro de 2008*. A submissão pode ser feita através do link http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/revista_fronteiras/submissao/

Saudações

Denise Cogo
Alexandre Rocha da Silva
Editores

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21/08/2008 // Em Questão

A Revista Em Questão, periódico da FABICO | UFRGS, está recebendo artigos para a edição 2008-02.

A revista divulga estudos e resultados de pesquisas nos campos da Informação, Comunicação e áreas afins.

Os originais devem ser enviados pelo sistema on-line até 30 de setembro.

Maiores informações sobre o escopo da revista e submissão dos artigos pelo endereço www.ufrgs.br/revistaemquestao

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20/08/2008 // A transcendência espiritual conduz o ser ao contato com o céu

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20/08/2008 // e com a terra

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20/08/2008 // Ser

ENTREVISTA / ROSENTAL CALMON ALVES
A nova identidade do jornal

Sala de Imprensa do site da Associação Nacional de Jornais

Lançador do primeiro jornal brasileiro na internet, fundador e diretor do Centro Knight para Jornalismo nas Américas e professor na Universidade do Texas, Rosental Calmon Alves falou no 7º Congresso Brasileiro de Jornais sobre sua especialidade: o jornalismo digital.

Em uma prévia do que abordou na segunda-feira (18/8) no Congresso, Rosental fala do profundo e necessário processo de mudanças no jornalismo online brasileiro, da abertura de conteúdo e da adaptação das redações e dos repórteres a essa nova era multimídia do jornalismo.

***

Como você avalia a resposta do jornalismo brasileiro à revolução digital?

Rosental Calmon Alves – O jornalismo online brasileiro tem sido um dos mais dinâmicos e criativos do mundo e nos primeiros anos esteve à frente até de muitos países mais avançados pelo menos num aspecto fundamental: entender que não se tratava simplesmente publicar na web o mesmo conteúdo do papel, mas sim de adiantar hoje o conteúdo do jornal de amanhã. A cobertura em tempo real, com suas vantagens e desvantagens, tem sido uma característica do jornalismo online brasileiro, em contraste ao shovelware, ou seja, a simples transferência do conteúdo do impresso que caracterizou o jornalismo online americano, por exemplo, especialmente nos primeiros anos.

Os jornais estão conseguindo acompanhar as necessidades do leitor?

R.C.A. – Agora, na Web 2.0, tenho visto exemplos muito bons dos jornais brasileiros em acompanhar não só as necessidades, mas as expectativas dos seus leitores na internet, como a abertura de canais de participação e a adoção de vídeo e áudio. Ainda há muito o que fazer tanto na área da abertura ao conteúdo gerado pelos usuários quanto na questão da multimídia, pois estamos apenas no começo de um processo de mudanças longo e profundo que implicam na adoção de uma nova identidade do jornal, que passa de um produto estático, fechado, monomidia e periódico a um híbrido de átomos e bits, um serviço dinâmico, aberto, multimídia, constantemente atualizado e sempre disponível.

Como fica a formação do novo jornalista multimídia?

R.C.A. – Os jornais precisam começar com urgência a adoção de programas de treinamento para dar uma chance aos seus jornalistas para que se adaptem às novas demandas profissionais. As faculdades de jornalismo também precisam adaptar seus programas. Mas não se deve exagerar nas expectativas. Ninguém deve esperar superjornalistas capazes de ser bons em todas as modalidades multimídia. Que os repórteres também batam fotos ou gravem vídeo não quer dizer que vão acabar os fotógrafos ou que o jornal não vai precisar de videógrafos, por exemplo. Mas é inconcebível hoje em dia que um repórter de jornal não possa tirar do bolso uma camerazinha e tirar uma foto ou gravar uns minutos de vídeo para aproveitar uma oportunidade.

A abertura de conteúdo têm se mostrado uma tendência mundial. É certa a reprodução do conteúdo do jornal nos sites sem que as vendas do jornal impresso se prejudiquem?

R.C.A. – O modelo de negócio do jornal foi desenvolvido na era industrial, quando havia escassez de informação e de métodos de aquisição de informação. A era digital na qual estamos mergulhando se caracteriza por uma hiper-abundância de informação. A tentativa de tentar levar o modelo do papel para a internet tem-se provado tola praticamente em todas as partes do mundo. A única exceção tem sido no caso de nichos de informação especializada, que não se pode encontrar facilmente de outro lado. No mundo dos jornais, uma notável exceção é o Wall Street Journal, que tradicionalmente se especializou em notícias de economia e negócios. Ainda assim o novo dono do Journal, maior empresário de mídia do mundo, Rupert Murdoch, esteve a ponto de abrir seu conteúdo porque ele entende perfeitamente a lógica da ecologia midiática que se esta formando.

Quanto às vendas da edição impressa do jornal, elas vão se prejudicar de todas as formas. É só uma questão de tempo. Tratar de mantê-las intactas ou aumentá-las a médio e longo prazos parece o mesmo que tomar sopa com garfo. A questão fundamental aqui é saber se o jornal quer participar do negócio que o está atacando (informação digital, multimídia e instantânea) ou ficar agarrado ao negócio que está sendo atacado (a informação que sabíamos ontem, publicada hoje somente em papel).

A receita online cobre os custos atuais?

R.C.A. – Por enquanto, não. Mas esta não é a pergunta que se deve fazer. Nenhum negócio vale por seu desempenho passado ou nem mesmo por seu desempenho presente, mas sim pela perspectiva de desempenho futuro. Nos mercados onde a internet está afetando seriamente os jornais, a receita online não cobre o que os jornais estão perdendo em suas operações tradicionais, mas é preciso ver as tendências. As receitas online crescem em muitos jornais a 30% ou 40% ao ano, a partir de uma base pequena, enquanto as receitas da edição tradicionais caem sistematicamente a taxas pequenas, mas que estão acelerando. E só fazer as contas e as projeções.

A história está cheia de negócios e empresas míopes, preocupadas em manter o presente e menosprezar as ameaças de negócios menores, mas inovadores, que acabaram sendo destruidores e vitoriosos. Os jornais não têm porque seguir esse caminho. A internet é o passaporte dos jornais para o futuro. Ela já lhes deu algo que eles não podiam imaginar há poucos anos: um extraordinário aumento de seu alcance, sua audiência. Os jornais nunca foram tão lidos em sua história, graças a soma das audiências do impresso e de suas versões digitais. Falta agora traduzir esse monumental crescimento em receita.

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19/08/2008 // Seus problemas com a nova ortografia acabaram

GUIA PRÁTICO DA NOVA ORTOGRAFIA
Saiba o que mudou na ortografia brasileira

Douglas Tufano - Guia Reforma Ortográfica
© 2008 Editora Melhoramentos Ltda.

Mudanças no alfabeto:

O alfabeto passa a ter 26 letras. Foram reintroduzidas as letras k, w e y. O alfabeto completo passa a ser:
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V WX Y Z

Trema:

Não se usa mais o trema (¨), sinal colocado sobre a letra u para indicar que ela deve ser pronunciada nos grupos gue, gui, que, qui.

Como era // Como fica
agüentar / aguentar
argüir / arguir
bilíngüe / bilíngue
cinqüenta / cinquenta
delinqüente / delinquente
eloqüente / eloquente
ensangüentado / ensanguentado
eqüestre / equestre
freqüente / frequente
lingüeta / lingueta
lingüiça / linguiça
qüinqüênio / quinquênio
sagüi / sagui
seqüência / sequência
seqüestro / sequestro
tranqüilo / tranquilo

Atenção: o trema permanece apenas nas palavras estrangeiras e em suas derivadas.
Exemplos: Müller, mülleriano.

Mudanças nas regras de acentuação:

1. Não se usa mais o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas (palavras que têm acento tônico na penúltima sílaba).

Como era // Como fica
alcalóide / alcaloide
alcatéia / alcateia
andróide / androide
apóia (verbo apoiar) / apoia
apóio (verbo apoiar) / apoio
asteróide / asteroide
bóia / boia
celulóide / celuloide
clarabóia / claraboia
colméia / colmeia
Coréia / Coreia
debilóide / debiloide
epopéia / epopeia
estóico / estoico
estréia / estreia
estréio (verbo estrear) / estreio
geléia / geleia
heróico / heroico
idéia / ideia
jibóia / jiboia
jóia / joia
odisséia / odisseia
paranóia / paranoia
paranóico / paranoico
platéia / plateia
tramóia / tramoia

Atenção: essa regra é válida somente para palavras paroxítonas. Assim, continuam a ser acentuadas as palavras oxítonas terminadas em éis, éu, éus, ói, óis. Exemplos: papéis, herói, heróis, troféu, troféus.

2. Nas palavras paroxítonas, não se usa mais o acento no i e no u tônicos quando vierem depois de um ditongo.

Como era // Como fica
baiúca / baiuca
bocaiúva / bocaiuva
cauíla / cauila
feiúra / feiura

Atenção: se a palavra for oxítona e o I ou o U estiverem em posição final (ou seguidos de s), o acento permanece.
Exemplos: tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

3. Não se usa mais o acento das palavras terminadas em êem e ôo(s).

Como era // Como fica
abençôo / abençoo
crêem (verbo crer) / creem
dêem (verbo dar) / deem
dôo (verbo doar) / doo
enjôo / enjoo
lêem (verbo ler) / leem
magôo (verbo magoar) / magoo
perdôo (verbo perdoar) / perdoo
povôo (verbo povoar) / povoo
vêem (verbo ver) / veem
vôos / voos
zôo / zoo

4. Não se usa mais o acento que diferenciava os pares pára/para, péla(s)/pela(s), pêlo(s)/pelo(s), pólo(s)/polo(s) e pêra/pera.

Como era // Como fica
Ele pára o carro. / Ele para o carro.
Ele foi ao pólo Norte / Ele foi ao polo Norte
Ele gosta de jogar pólo / Ele gosta de jogar polo.
Esse gato tem / Esse gato tem
pêlos brancos. / pelos brancos.
Comi uma pêra. / Comi uma pera.

Atenção:
• Permanece o acento diferencial em pôde/pode. Pôde é a forma do passado do verbo poder (pretérito perfeito do indicativo), na 3a pessoa do singular. Pode é a forma do presente do indicativo, na 3a pessoa do singular.
Exemplo: Ontem, ele não pôde sair mais cedo, mas hoje ele pode.

• Permanece o acento diferencial em pôr/por. Pôr é verbo. Por é preposição.
Exemplo: Vou pôr o livro na estante que foi feita por mim.

• Permanecem os acentos que diferenciam o singular do plural dos verbos ter e vir, assim como de seus derivados (manter, deter, reter, conter, convir, intervir, advir etc.). Exemplos:
Ele tem dois carros. / Eles têm dois carros.
Ele vem de Sorocaba. / Eles vêm de Sorocaba.
Ele mantém a palavra. / Eles mantêm a palavra.
Ele convém aos estudantes. / Eles convêm aos estudantes.
Ele detém o poder. / Eles detêm o poder.
Ele intervém em todas as aulas. / Eles intervêm em todas as aulas.

• É facultativo o uso do acento circunflexo para diferenciar as palavras forma/fôrma. Em alguns casos, o uso do acento deixa a frase mais clara. Veja este exemplo: Qual é a forma da fôrma do bolo?

5. Não se usa mais o acento agudo no u tônico das formas (tu) arguis, (ele) argui, (eles) arguem, do presente do indicativo dos verbos arguir e redarguir.

6. Há uma variação na pronúncia dos verbos terminados em guar, quar e quir, como aguar, averiguar, apaziguar, desaguar, enxaguar, obliquar, delinquir etc. Esses verbos admitem duas pronúncias em algumas formas do presente do indicativo, do presente do subjuntivo e também do imperativo.
Veja:
a) se forem pronunciadas com A ou I tônicos, essas formas devem ser acentuadas.
Exemplos: Verbo enxaguar: enxáguo, enxáguas, enxágua, enxáguam; enxágue, enxágues, enxágüem; Verbo delinquir: delínquo, delínques, delínque, delínquem; delínqua, delínquas, delínquam.

b) se forem pronunciadas com u tônico, essas formas deixam de ser acentuadas.
Exemplos (a vogal sublinhada é tônica, isto é, deve ser pronunciada mais fortemente que as outras):
Verbo enxaguar: enxaguo, enxaguas, enxagua, enxaguam; enxague, enxagues, enxágüem; Verbo delinquir: delinquo, delinques, delinque, delinquem; delinqua, delinquas, delinquam.
Atenção: no Brasil, a pronúncia mais corrente é a primeira, aquela com A e I tônicos.

Uso do hífen:

Algumas regras do uso do hífen foram alteradas pelo novo Acordo. Mas, como se trata ainda de matéria controvertida em muitos aspectos, para facilitar a compreensão dos leitores, apresentamos um resumo das regras que orientam o uso do hífen com os prefixos mais comuns, assim como as novas orientações estabelecidas pelo Acordo.
As observações a seguir referem-se ao uso do hífen em palavras formadas por prefixos ou por elementos que podem funcionar como prefixos, como:
aero, agro, além, ante, anti, aquém, arqui, auto, circum, co, contra, eletro, entre, ex, extra, geo, hidro, hiper, infra, inter, intra, macro, micro, mini, multi, neo, pan, pluri, proto, pós, pré, pró, pseudo, retro, semi, sobre, sub, super, supra, tele, ultra, vice etc.

1. Com prefixos, usa-se sempre o hífen diante de palavra iniciada por H.
Exemplos: anti-higiênico; anti-histórico; co-herdeiro; macro-história; mini-hotel; proto-história; sobre-humano; super-homem; ultra-humano
Exceção: subumano (nesse caso, a palavra humano perde o H).

2. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento.
Exemplos: aeroespacial; agroindustrial; anteontem; antiaéreo; antieducativo; autoaprendizagem; autoescola; autoestrada; autoinstrução; coautor; coedição; extraescolar; infraestrutura; plurianual; semiaberto; semianalfabeto; semiesférico; semiopaco
Exceção: o prefixo CO aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por O: coobrigar, coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.

3. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de R ou S.
Exemplos: anteprojeto; antipedagógico; autopeça; autoproteção; coprodução; geopolítica; microcomputador; pseudoprofessor; semicírculo; semideus; seminovo; ultramoderno
Atenção: com o prefixo VICE, usa-se sempre o hífen. Exemplos: vice-rei, vice-almirante etc.

4. Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por R ou S. Nesse caso, duplicam-se essas letras.
Exemplos: antirrábico; antirracismo; antirreligioso; antirrugas; antissocial; biorritmo; contrarregra; contrassenso; cosseno; infrassom; microssistema;
minissaia; multissecular; neorrealismo; neossimbolista; semirreta; ultrarresistente; ultrassom

5. Quando o prefixo termina por vogal, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal.
Exemplos: anti-ibérico; anti-imperialista; anti-inflaacionário; anti-inflamatório; auto-observação; contra-almirante; contra-atacar; contra-ataque; micro-ondas; micro-ônibus; semi-internato; semi-interno

6. Quando o prefixo termina por consoante, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma consoante.
Exemplos: hiper-requintado; inter-racial; inter-regional; sub-bibliotecário; super-racista; super-reacionário; super-resistente; super-romântico
Atenção:
• Nos demais casos não se usa o hífen.
Exemplos: hipermercado, intermunicipal, superinteressante, superproteção.

• Com o prefixo sub, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por R: sub-região, sub-raça etc.

• Com os prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por M, N e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.

7. Quando o prefixo termina por consoante, não se usa o hífen se o segundo elemento começar por vogal. Exemplos: hiperacidez; hiperativo; interescolar; interestadual; interestelar; interestudantil; superamigo; superaquecimento; supereconômico; superexigente; superinteressante; superotimismo

8. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen. Exemplos:
além-mar; além-túmulo; aquém-mar; ex-aluno; ex-diretor; ex-hospedeiro; ex-prefeito; ex-presidente; pós-graduação; pré-história; pré-vestibular; pró-europeu; recém-casado; recém-nascido; sem-terra

9. Deve-se usar o hífen com os sufixos de origem tupi-guarani: açu, guaçu e mirim. Exemplos: amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

10. Deve-se usar o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares. Exemplos: ponte Rio-Niterói, eixo Rio-São Paulo.

11. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição. Exemplos:
girassol; madressilva; mandachuva; paraquedas; paraquedista; pontapé

12. Para clareza gráfica, se no final da linha a partição de uma palavra ou combinação de palavras coincidir com o hífen, ele deve ser repetido na linha seguinte.
Exemplos:
Na cidade, conta-
-se que ele foi viajar.
O diretor recebeu os ex-
-alunos.

Resumo do emprego do hífen com prefixos:

Regra básica
Sempre se usa o hífen diante de h: anti-higiênico, super-homem.
Outros casos
1. Prefixo terminado em vogal:
• Sem hífen diante de vogal diferente: autoescola, antiaéreo.
• Sem hífen diante de consoante diferente de R e S: anteprojeto, semicírculo.
• Sem hífen diante de R e S. Dobram-se essas letras: antirracismo, antissocial, ultrassom.
• Com hífen diante de mesma vogal: contra-ataque, micro-ondas.
2. Prefixo terminado em consoante:
• Com hífen diante de mesma consoante: inter-regional, sub-bibliotecário.
• Sem hífen diante de consoante diferente: intermunicipal, supersônico.
• Sem hífen diante de vogal: interestadual, superinteressante.

Observações
1. Com o prefixo SUB, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por R: sub-região, sub-raça etc.
Palavras iniciadas por H perdem essa letra e juntam-se sem hífen: subumano, subumanidade.
2. Com os prefixos CIRCUM e PAN, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por M, N e vogal: circum-navegação, pan-americano etc.
3. O prefixo CO aglutina-se em geral com o segundo elemento, mesmo quando este se
inicia por O: coobrigação, coordenar, cooperar, cooperação, cooptar, coocupante etc.
4. Com o prefixo VICE, usa-se sempre o hífen: vice-rei, vice-almirante etc.
5. Não se deve usar o hífen em certas palavras que perderam a noção de composição, como girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista etc.
6. Com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, usa-se sempre o hífen:
ex-aluno, sem-terra, além-mar, aquém-mar, recém-casado, pós-graduação, pré-vestibular, pró-europeu.

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18/08/2008 // Hay trabajo

Do Repórter S/A

Petrobras realiza concurso para jornalista no Rio

Empresa: Petrobras

Local: Rio de Janeiro - RJ

Cargo: Jornalista (1 vaga)

Exigências: Certificado de conclusão ou diploma, devidamente registrado, de conclusão de curso de graduação de nível superior, bacharelado, em Comunicação Social - Jornalista, reconhecido pelo Ministério da Educação e registro no Ministério do Trabalho e Emprego, como Jornalista. Acompanhar, participar e executar atividades voltadas à produção de meios e conteúdos textuais e visuais para veiculação em meios impressos, digitais e interativos; redigir comunicados e informativos para imprensa, bem como efetuando suporte na cobertura de ações e atividades da Companhia

Remuneração: R$ 4.798,65

Inscrições: até 31/08 (taxa R$ 39,80)
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Ministério da Justiça promove concurso público para jornalista em Brasília

Empresa: Ministério da Justiça

Local: Brasília - DF

Cargo: Jornalista (3 vagas)

Exigências: Diploma de curso de graduação concluído em Comunicação Social (habilitação Jornalismo) fornecido por instituição de ensino superior reconhecida pelo MEC

Remuneração: R$ 3.800,00

Inscrição: até 22/08 (taxa R$ 60,00)

Informações: www.funrio.org.br
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Tribunal de Justiça do Ceará abre concurso público para jornalista

Empresa: Tribuna de Justiça do Ceará

Local: Recife - CE

Cargo: Jornalista (1 vaga)

Exigências: Diploma, devidamente registrado, de conclusão de curso de graduação de nível superior em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, fornecido por instituição de ensino reconhecida pelo Ministério da Educação. Atividades relacionadas à assessoria de imprensa tais como produzir, informar, redigir, sugerir o que, como e quando divulgar. Manter boas relações com a mídia. Divulgar produtos de caráter jornalístico do Poder Judiciário. Organizar e realizar eventos considerados jornalísticos. Administrar o fluxo de informações para os veículos de comunicação

Remuneração: R$ 2.096,70

Inscrições: até 02/09 (taxa R$ 70,00)

Informações: http://www.cespe.unb.br/concursos/tjce2008

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18/08/2008 // O troco

Um ajudante de obras descansava na hora do almoço no último andar dum aranha-céus de 40 andares onde estava a trabalhar, quando de repente olhou para baixo do prédio, notou um vulto acenando e pedindo para ele descer.

O pobre ajudante desceu os 40 andares pela escada, pois não tinha elevador. E chegando no rés do chão, muito cansado, deu de cara com a pessoa que lhe tinha chamado. Era um MENDIGO a pedir-lhe:

- UMA ESMOLA, POR FAVOR, ou UM PRATO DE COMIDA.

O ajudante olhou para o pobre homem e pediu para que ele o acompanhasse atá o 40º andar.
Subiram os 40 andares e, chegando lá, o ajudante disse ao mendigo:

- NÃO TENHO

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18/08/2008 // Ambulante no mercado paralelo da Matola, a 20 km de Maputo, em Moçambique

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18/08/2008 // Uma imagem e uma idéia para uma bela semana

"Melhor na ponta dos pés do que de quatro". - A Gaia Ciência - Friedrich Nietzsche

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17/08/2008 // Leitura dominical

1
Final de tarde e o relógio digital da esquina marcava a temperatura de 38o. Pouca diferença fazia se era dia ou noite; dentro do carro o calor era o mesmo. Respiravam, havia horas, uma mistura enjoativa de suor, restos de sanduíches e fumaça dos ônibus. De nada adiantava fazer o carro andar mais rápido ou mais devagar, o ar que entrava pela janela em plena hora do rush não alterava a mistura de cheiros e não abrandava o calor. A farda úmida de suor colava ao corpo como a pele fria de um réptil. Foi quase com alegria que atenderam ao chamado para o endereço a poucas quadras de onde estavam.
O prédio era velho e a galeria que dava acesso aos elevadores tivera suas lojas originais divididas em
pequenos boxes, onde homens e mulheres malcuidados vendiam miudezas e ofereciam serviços de bombeiro, gasista, eletricista, manicura, costureira, cartomante. Apesar de situado em ponto de grande movimento da avenida Copacabana, os boxes atendiam quase que unicamente à demanda dos moradores dos mais de cem apartamentos do próprio prédio. Dos quatro elevadores, apenas dois funcionavam, e a minuteria estava quebrada ou desligada.
Pararam o elevador no décimo andar e desceram um lance de escada. Não queriam ser surpreendidos. Não sabiam exatamente contra o que estavam se precavendo, mas haviam aprendido a ser prudentes em ocasiões como aquela. O que ia na frente avançou lentamente pelo corredor escuro, olhar fixo no risco de luz que cruzava o chão defronte da porta do novecentos e dez. Uma das mãos segurava a arma apontada para o teto enquanto a outra deslizava pela parede, guiando os passos. Um som de voz saía pela porta entreaberta do apartamento uma dezena de metros adiante deles, mas a respiração do colega logo atrás não o deixava ouvir claramente.
A mensagem recebida pelo rádio do carro falava em morte por arma de fogo. Pensou em como aquelas palavras se aplicavam a tudo no seu dia-a-dia. Desde que fora designado para o serviço de patrulha nas ruas não vira outra coisa que não fosse violência, e morte por arma de fogo nem sempre era a maior das violências. O pouco treinamento que tivera antes de ir para a rua não lhe possibilitara dar mais de meia dúzia de tiros — economia de munição, diziam —, mas incluía o que chamavam de preparação psicológica, sendo que a moça que fazia as palestras para os recrutas usava a palavra psicologia como usava batom: para enfeitar a boca. O rapaz não entendia de psicologia, mas entendia de violência. Convivera com ela desde o dia em que nascera. Seus vinte e dois anos de vida, todos eles vividos na favela, tinham-no habituado a violência de todo tipo, tanto a dos bandidos e traficantes como a da própria polícia. Mudara-se de lá fazia menos de um mês. Estavam matando policiais. O próprio comando tinha providenciado a mudança. É isso mesmo, morro não é lugar para policial. Lá, a lei é a do traficante, depois vem a lei de Deus.
Estava agora a um metro da porta e podia ouvir uma voz rouca de homem, sempre no mesmo tom, como uma criança recitando a lição para a professora. Sentiu o suor escorrendo pelo pescoço, não mais de calor, mas de nervoso. Não ouvia nenhuma outra voz, talvez o homem estivesse falando ao telefone. A porta entreaberta deixava uma fresta de pouco mais de um centímetro e, antes de colocar a cabeça no facho de luz, fez uma concha com a mão junto ao ouvido na tentativa de ouvir outro som além da voz do homem. No escuro do corredor, esticou o braço para trás, mantendo o parceiro afastado; a respiração dele atrapalhava. Arriscou um rápido olhar. A fresta era mínima e abrangia o ângulo menor da sala. Na primeira tentativa deu para ver um pedaço da parede, a ponta de uma mesinha e o que lhe pareceu um velho sentado numa cadeira de rodas. Esperou alguns segundos e deu mais uma olhada. O velho continuava a falar. Era de fato uma cadeira de rodas, e ele não falava ao telefone, mas com alguém sentado à sua frente, fora do campo de visão. Fez sinal para o parceiro e empurrou levemente a porta, torcendo para ela não ranger.
Os poucos centímetros permitiram uma visão mais ampla do interior. Agora dava para ver o velho inteiro e a cadeira de rodas, mas não dava para ver a outra pessoa com quem ele falava. O rapaz deu uma leve batida na porta com o nó do dedo. O velho não se mexeu nem alterou a voz, continuou falando. O rapaz abriu inteiramente a porta. O velho de fato conversava com outro homem sentado no sofá. O homem tinha a camisa manchada de vermelho na altura do coração.

2
O que primeiro capturou o olhar de Espinosa foi a abertura na saia, que deixava à mostra parte da coxa quando ela andava. Sentado próximo à porta, tinha uma ampla visão da rua, e antes mesmo de ela passar na frente do bar, foi o pedaço de coxa aparecendo sob a saia com o movimento ondulante do andar que a destacou das demais mulheres. Tinha em torno de trinta e cinco anos, corpo bem-feito, belas pernas e um rosto cuja beleza estava comprometida pela expressão de cansaço e pelo cabelo em desalinho. O detalhe da saia não lhe conferia nenhum traço vulgar; o que ela deixava transparecer era ousadia, e não vulgaridade. Acompanhou com o olhar o leve ondular de quadris e o aparecer e ocultar da coxa, até ela cruzar a extensão da frente do café e sair do seu campo de visão.
Espinosa voltou-se para o capuccino que começara a tomar e concentrou-se na espuma polvilhada de
canela. Alguns goles depois, ainda pensava na mulher quando a viu entrar no café. Não esperava que ela voltasse.
Viu-a dirigir-se ao caixa e depois procurar um lugar no balcão. Sentiu seu regresso como uma distinção que os deuses lhe concediam naquela tarde de verão, e achou-se no direito de examinar mais detalhadamente o que lhe era oferecido ao olhar. O que vira de passagem, confirmou-se: o desenho perfeito das pernas, o rosto bonito, com pequenas marcas do tempo nos cantos da boca e nas laterais dos olhos acrescentando experiência à juventude do corpo. Tinha de fato o olhar cansado e o cabelo pedia cuidados, embora as mãos e a pele fossem bem-tratadas. Não parecia prestar atenção a nada nem a ninguém, olhava para a xícara apenas. Não por recato, pensava Espinosa.
Quem desfila em meio à multidão em pleno centro da cidade com uma saia justa aberta na coxa não lhe parecia propriamente recatada.
Não se passou muito tempo até o delegado dar-se conta de que ela não chamava a atenção como ele
imaginara de início. Os homens não estavam todos olhando para ela; na verdade, além dele, apenas um garçom imberbe e com espinhas no rosto tinha o olhar voltado pa-ra a mulher que, de frente para o balcão e de costas para eles, não lhes concedia a graça da saia entreaberta. Com o pensamento vagando pelas causas possíveis do rosto cansado (ou seria triste?), demorou a perceber que o zumbido no bolso do paletó era o telefone. Quase ao mesmo tempo em que atendia ao chamado, a mulher também retirou de dentro da bolsa um telefone celular. Os dois falavam ao mesmo tempo. Infelizmente não um com o outro, pensou. Enquanto falava, ela olhava para Espinosa sem vê-lo, enquanto ele olhava para ela e procurava entender o que dizia o detetive Welber, seu assistente, ao telefone.
— Delegado, temos outra morte de um colega.
— Quem?
— Silveira, da Terceira DP.
— Não conheço.
— Era da antiga, mas não era muito conhecido.
— Onde você está?
— No local. Praça do Lido, no lado que dá para a praia.
— Ele foi morto na rua?
— Mais ou menos. A praça é cercada com grade. Ele foi encontrado sentado num dos bancos.
— Estou indo para aí.

Concentrado no telefonema, desviara a atenção da mulher; quando desligou, ela não estava mais no café. A conversa com Welber durara poucos segundos, ela não podia ter sumido por completo. Foi até a porta e olhou em volta. O movimento de pedestres era intenso e ela podia ter tomado quatro direções diferentes. Também não sabia o que faria caso a visse se afastando. Não era um conquistador. Nunca fora. Achava que o casamento provocara nele a perda dos códigos amorosos vigentes. Dez anos de casado tinham produzido uma miopia afetiva. Desde a separação, empenhava-se em redirecionar o olhar, em aprender novos códigos, em se apropriar de novos territórios amorosos.
De apenas uma coisa se convencera: o excesso de olhar sobre um único objeto não lhe dera excelência; tornara-o míope, além de transformá-lo num marido medíocre e num pai igualmente deficiente. A última década estava sendo dedicada a fazer daquele tempo investido no casamento algo não de todo perdido.
Foi andando até a estação do metrô, pensando que seria muita coincidência voltar a vê-la na plataforma à espera do mesmo trem para Copacabana. Às três e meia da tarde a plataforma da estação Cinelândia não estava cheia, e mesmo que estivesse ele achava que poderia discerni-la na multidão. Mas ela não estava lá.
Tirara a tarde para comprar uma nova torradeira elétrica e para percorrer alguns sebos do centro da cidade.
Não gostava de shopping centers, preferia o comércio do centro da cidade e sua arquitetura variada. Mal começara quando o telefonema o interrompera. Tinha plena consciência do caráter encobridor de ambos, torradeira e sebo, naquela sua ida ao Centro. Não precisava ir tão longe para nenhuma das duas coisas; mais ainda, nenhuma delas tinha a premência e a importância que justificariam o afastamento do delegado titular da 12a DP, numa tarde de segunda-feira, do seu local de trabalho no bairro de Copacabana, a não ser o fato de essas tarefas sem importância alimentarem sua fantasia de uma vida fora da polícia.
A coisa aparecia de tempos em tempos, como um surto. O deflagrador do surto tanto podia ser a notícia no jornal de que policiais controlavam a prostituição em vários bairros da cidade, como podia ser um fim de semana passado inteiro com Irene. Eram vivências diametralmente opostas — repulsão no primeiro caso e atração no segundo —, cada uma, a sua maneira, sinalizando o afastamento que, silencioso e imperceptível, começara havia tempo e que era fonte de intensa inquietude. Até então, uma caminhada pelas ruas do centro do Rio funcionava como remédio eficaz, mas ele sabia intimamente que era um placebo.
A caminho da praça do Lido, pensava no seu gosto pelos livros. Não era propriamente pelos livros; não era um bibliófilo, seus livros não tinham sequer estante, eram empilhados junto à parede da sala, uma fileira de livros em pé, outra de livros deitados simulando uma prateleira, outra de livros em pé e assim por diante, tendo atingido uma altura que superava a dele próprio. Também não era um erudito. Longe disso. Faltava-lhe cultura. O que procurava nos livros era boas narrativas, histórias bem contadas. Devia à avó, responsável por sua educação, o gosto pela leitura. De qualquer maneira, naquela tarde, no centro da cidade, não comprara nenhum livro, tampouco a torradeira; fora apenas cativado por uma perna. Lamentava pelos sebos não visitados, mas guardava uma satisfação íntima no que dizia respeito à torradeira. A dele estava com o mesmo defeito fazia quase um ano: torrava apenas um dos lados de cada fatia. Já se acostumara ao ritual de esquentar primeiro um lado do pão, para em seguida virar as fatias e esperar pelo outro lado. Antes mesmo de se desfazer dela, já estava com saudade. Provavelmente ela acabara de ganhar mais um ano de vida. Pelo menos enquanto continuasse a torrar um dos lados do pão.
Chegou à praça do Lido pouco antes das quatro da tarde. Situada no primeiro terço da praia de
Copacabana, a praça abrange metade de uma quadra, a outra metade sendo ocupada por uma escola pública. A escola fica na metade voltada para a avenida Copacabana, enquanto a praça está voltada para a avenida Atlântica, de frente para o mar. Estaria, àquela hora, tomada por crianças e idosos não fosse a fita amarela isolando a área. Coberto por um plástico preto que Espinosa identificou como sendo um saco de lixo cortado ao comprido, o corpo permanecia no banco, na mesma posição em que fora notado pela acompanhante de uma velha senhora freqüentadora da praça.
Assim que se curvou para passar por baixo da fita amarela que mantinha afastados os curiosos, Espinosa viu seu auxiliar caminhando em sua direção. Para o delegado, Welber perdera o jeito de calouro universitário de quando se conheceram, mas conservava o mesmo entusiasmo que dois anos antes fizera com que levasse o tiro endereçado ao seu chefe; não por heroísmo — embora fosse capaz disso —, mas por ser mais rápido, mais jovem.
— O que houve? — perguntou o delegado.
— Silveira... da Terceira DP... levou um tiro na nuca, sentado no banco do jardim. Ninguém viu nem ouviu nada. Quem descobriu que ele estava morto foi a acompanhante de uma senhora em cadeira de rodas que vem todas as tardes à praça. Ela se sentou numa das pontas do banco com a cadeira de rodas ao lado, e conversava com a senhora... Segundo ela, não era propriamente uma conversa, pois só ela falava. Meia hora depois, notou que o homem sentado na outra ponta do banco, cabeça caída sobre o peito, não tinha movido nem um dedo. Primeiro pensou que ele estivesse dormindo, mas logo viu que alguma coisa estava errada. Falou com ele, mas ele não respondeu; insistiu, mas o homem continuou imóvel. Levantou-se para olhar. Foi quando viu o sangue no colarinho. Chamou um funcionário que trabalhava na conservação da praça e pediu que telefonasse para a polícia. Isso aconteceu por volta das três da tarde.
— Onde está a mulher?
— Naquele outro banco. Diz que não pode ficar mais, que tem que levar a senhora para casa.
— E essa senhora? Viu ou ouviu alguma coisa?
— Ela não fala. A acompanhante diz que entende alguns grunhidos e gestos dela, mas acha que ela não tem noção do que se passa em volta. De todo modo, não deu mostras de ter se espantado com coisa nenhuma.
— Por que elas não escolheram um banco vazio?
— Porque todos os outros estavam ocupados. Aquele era o único que tinha apenas uma pessoa.
— Nenhuma testemunha?
— Ninguém. Na verdade, ninguém percebeu nada de anormal.
— O que você conseguiu saber?
— Pouca coisa. O tiro foi dado à queima-roupa, com a vítima sentada no banco, de costas para a parte gramada da praça. O assassino pode ter se aproximado por trás, pela grama, silenciosamente, com a arma oculta sob um jornal ou dentro de uma sacola. O barulho do trânsito nas duas avenidas é bastante para abafar o ruído de uma arma com silencioso. Serviço de profissional.
— O que estava fazendo um detetive da Terceira DP, do Centro da cidade, às três horas da tarde de um dia de semana, sentado num banco de praça em Copacabana?

Mal terminou a pergunta, viu que ela podia perfeitamente ser aplicada a ele próprio. O que estava fazendo à mesma hora, sentado num café no centro da cidade? Se tivesse levado um tiro na cabeça, o que sua morte teria a ver com o fato de estar tomando capuccino no Centro? Nenhum investigador, por mais extraordinário que fosse, poderia adivinhar que ele estava lá apenas porque o acaso caprichoso o pusera sentado naquele café para que seu olhar, naquele preciso momento, fosse capturado pela imagem de uma saia com fenda sobre a perna.
— Verifique se ele mora ou tem algum parente morando perto daqui. A praça deve ter um funcionário encarregado da conservação, converse com ele, pergunte se já tinha visto o detetive Silveira; eu me encarrego de conversar com o delegado da Terceira DP. Alguém examinou os bolsos dele?
— Eu examinei. Carteira de dinheiro, carteira de identificação, telefone celular, chaves, caneta, bloco de notas, lenço... a arma na cintura. Nada escrito no bloco de notas.
— Alguém pode ter feito o mesmo antes de você?
— Os policiais da viatura que atendeu ao chamado, mas se alguém examinou seus bolsos não parece ter tirado nada. Na carteira tem cartões de crédito, talão de cheques e uma boa quantia em dinheiro.
— Se você já anotou os nomes e endereços da acompanhante e da senhora, pode liberá-las. Se o Silveira usava a praça como ponto de encontro, o funcionário deve ter percebido alguma coisa. Dê uma espremida nele. Vejo você na delegacia.

Eram cinco quadras ao longo da avenida Atlântica e mais duas para dentro, pela Hilário de Gouveia, até a delegacia. Sempre que possível, Espinosa preferia o percurso pela avenida Atlântica a qualquer outro.
O vento leve mantinha o mar calmo com pequenas ondas, e bandos de mergulhões voavam em formação rumo às ilhas Cagarras. Por que alguém escolheria um lugar público, uma praça, para matar a tiro um policial? Uma resposta: porque é o melhor lugar para se matar um policial. Outra resposta: porque calhou de ser aquele lugar.
Terceira resposta: porque o policial e o assassino marcaram um encontro naquele lugar. Havia outras respostas possíveis, mas como o percurso até a delegacia não era muito longo, Espinosa contentou-se com as três hipóteses, sendo que, das três, a terceira era indiscutivelmente a melhor. Ora, se o policial tinha marcado encontro com o assassino e o esperava sentado tranqüilamente no banco da praça, era porque ou não sabia que se tratava de um assassino, ou sabia mas não lhe passava pela cabeça que a vítima seria ele próprio. Não parecia um encontro para acerto de contas, o policial teria sido mais prudente. A maneira despreocupada com que aparentemente aguardara a chegada do outro demonstrava que eram conhecidos, ou mesmo amigos. Descartou a hipótese de um encontro para entrega de mercadoria, aquele não era um bom lugar: muito visível, todo gradeado e com apenas uma saída. Pouco provável que tivessem se encontrado para um bucólico bate-papo na praça. Quem chega com uma arma munida de silenciador, pronta para atirar, não está a fim de conversa. A brisa vinda do mar abrandava o calor do verão a ponto de tornar a caminhada bastante agradável. Contanto, evidentemente, que continuasse andando pelo lado da sombra.
Assim que chegou à delegacia, telefonou para a 3ª DP. O delegado que respondia pelo expediente era novo na função e, pela voz, parecia também novo em idade. Não se conheciam, e nesses casos Espinosa preferia usar um tratamento formal.
— Doutor, sinto o que aconteceu ao seu detetive. Estou vindo do local da ocorrência e gostaria de trocar algumas palavras com o senhor a respeito da vítima.
— Obrigado, delegado Espinosa. Estou na Terceira DP há pouco mais de um mês, ainda não conheço bem todos os policiais, tive pouco contato com o Silveira. Sei apenas que era um detetive da antiga, que nunca procurou se aperfeiçoar e que contava tempo para se aposentar como detetive de primeira.
— Ele estava trabalhando ou trabalhou recentemente em algum caso que pudesse dar margem a um ato de vingança?
— Não que eu saiba.
— Algum desafeto declarado?
— Acho que não. Era um homem pacato, tinha boa relação com os colegas.
— De toda maneira, obrigado. Fique à vontade para solicitar as informações que quiser sobre o andamento do caso.
— Obrigado.

Welber chegou quarenta minutos depois.
— Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada, o funcionário da praça nunca tinha visto o Silveira. Parece que o cara morreu de um ataque do coração, e não com um tiro na cabeça, na frente de todo mundo. Teve até gente dizendo que ele foi vítima de bala perdida.
— Pode ser, só que quem a perdeu, perdeu dentro da cabeça dele.
— Falou com o delegado da Terceira DP?
— Falei. Pelo que ele me disse, o Silveira era um policial exemplar e querido pelos colegas. Na minha
opinião, para quem era tão exemplar e tão querido, ele está sendo muito pouco pranteado. Até agora ninguém se interessou por saber o que aconteceu.
— O que o senhor acha que aconteceu?
— Podemos estar às voltas com dois assassinatos interligados: esse de hoje e o do Ramos, na semana passada. Eles têm alguns pontos em comum. O primeiro deles, é óbvio: as duas vítimas eram policiais; o segundo é o modo de agir do assassino: um tiro apenas, certeiro, mortal, sem luta, sem confusão; o terceiro ponto é uma espécie de visibilidade inútil: Ramos foi morto na frente do pai, portador do mal de Alzheimer e incapaz de entender o que se passou; Silveira foi morto na frente de todo mundo, mas ninguém viu nada. O mesmo estilo, o mesmo assassino nos dois casos. É uma boa aposta.

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17/08/2008 // Vocabulário midiático

Do Blog do Bourdoukan

Dou seqüência à publicação de verbetes que tenho escrito para a Revista Caros Amigos. O de hoje, pode ser lido também na edição deste mês (agosto de 2008) que acaba de chegar às bancas.

VERBETES*
MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

Ditador: É a denominação que a mídia dá a um presidente eleito democraticamente que age de acordo com a Constituição. Exemplo: Hugo Chávez.

Presidente: É a denominação que a mídia dá a quem aprova leis ditatoriais, invade nações para apossar-se de suas riquezas, assassina mais de um milhão de seres humanos; constrói muros segregacionistas; é contra o Tribunal Penal Internacional e os protocolos de Kioto. Exemplo: George W. Bush.

Incursão: Assim a mídia denomina a invasão de um país.

Tutela: É o sinônimo que a mídia dá a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos da América.

Terrorista: Assim a mídia denomina o revolucionário que luta contra o jugo colonialista. Exemplo: iraquianos, afegãos e palestinos.

Suicida: Denominação que a mídia dá ao prisioneiro assassinado pelos carrascos estadunidenses nas prisões de Abu-Ghraib e Guantánamo.

Ataque cirúrgico: Assim a mídia repercute quando um míssil estadunidense erra o alvo e causa a morte de civis. Três exemplos:
1)Assassinato da filha de cinco anos do presidente líbio, Muammar Kadhafi, em 1986;
2)Abate de um avião civil iraniano com 298 passageiros e tripulantes em 1988. Não houve sobreviventes.
3)Destruição de uma indústria farmacêutica no sudão em 1998.

Seqüestro: Se um soldado israelense é capturado quando invade o Líbano ou a Palestina, a mídia diz que foi seqüestro.

Captura: Se um palestino ou libanês é seqüestrado pelas tropas invasoras, a mídia diz que foi capturta.

Incidente: Dá-se quando tropas de Israel ou dos Estados Unidos massacram centenas de civis palestinos, iraquianos e afegãos.

Massacre: Dá-se quando palestinos, iraquianos e afegãos matam dois ou três soldados de Israel ou Estados Unidos.

Assentamento: Denominação que a mídia dá à usurpação de terras palestinas por invasores israelenses.

Conflito: Assim a mídia denomina a invasão e ocupação da Palestina por tropas de Israel.

* Publicado na Caros Amigos de agosto de 2008.

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16/08/2008 // Rio, me aguarde

Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2008.

Carta de aceite

Caro Álvaro Nunes Larangeira,

Temos a satisfação de informar que o trabalho O brado erístico e o silêncio obsequioso na ágora petista: a política comunicacional do Partido dos Trabalhadores no episódio Mensalão expressa na revista Teoria e Debate, proposto para apresentação no III Congresso de Estudantes de Pós-graduação em comunicação, foi ACEITO.

Em breve, divulgaremos em www.conecorio.uerj.br a programação completa do Congresso, na qual você poderá conferir a data e horário da sessão em que deverá apresentar seu trabalho, bem como a lista de trabalhos aceitos. Conheça-os com antecedência para melhor participar dos debates durante o evento.

Estamos providenciando recursos multimídia para a apresentação dos trabalhos, mas recomendamos que você prepare uma versão alternativa de sua exposição, que não dependa de equipamentos, para a eventualidade de não haver tais recursos na sala onde ela ocorrer. Caso você tenha dúvidas a este respeito, contate a organização do evento pelo e-mail conecorio@yahoo.com.br.

Nós o agradecemos desde já a sua presença e contribuição acadêmica ao Congresso.

Cordialmente,

Comissão organizadora
III Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação

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16/08/2008 // As novas resoluções da Capes

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Ministério da Educação - Anexos I e II - 2º andar
Caixa Postal 365
CEP 70359-970 - Brasília/DF / Brasil
http://www.capes.gov.br

OFÍCIO CIRCULAR Nº 060/2008/DAV/CAPES

Assunto: Qualis e Ficha de Avaliação

Brasília, 11 de Agosto de 2008.

Prezados pró-reitores e coordenadores de programas,
Esta comunicação pretende esclarecer certas dúvidas que, apesar das inúmeras reuniões que realizamos na sede da Capes, em Brasília, com as coordenações de praticamente todos os programas de pós-graduação do país, podem ainda persistir, em especial quanto ao Qualis e à Ficha de Avaliação.

Ao término de seu mandato, o CTC 2005-2008 deixou um importante legado, o que nunca sucedera antes. Realizou longo debate, com um balanço das mudanças que efetuou e que apoio ao longo do triênio, mas não quis deliberar sobre assuntos que extrapolavam o seu mandato. Constituiu então duas comissões que, agregando novos coordenadores de área, promoveram um balanço do Qualis de Periódicos e da Ficha de Avaliação, apontando seus pontos positivos e aqueles que poderiam ou mesmo deveriam ser aprimorados. A comissão do Qualis foi presidida por Jairton Dupont (UFRGS), que continua na coordenação de área de Química, e a da Ficha por Robert Verhine (UFBA), que foi representante de área de Educação. A Diretoria de Avaliação organizou sucessivas reuniões, com todas as coordenações de áreas, até que se chegasse a decisões unânimes ou quase unânimes sobre esses pontos, bem como sobre o Qualis de Livros.

Passamos a expor sinteticamente os princípios das mudanças acordadas.

1. No Qualis de Periódicos, um dos grandes problemas era cada área hierarquizar os nove estratos existentes de forma diferente. Refiro-me a Internacional A, B e C, Nacional A, B e C, Local A, B e C. O único ponto comum a todas as áreas era que Internacional A tinha o valor mais alto. Pelo menos uma área descartava todos os demais estratos. As outras entendiam, por segundo estrato mais importante, os mais variados: podia ser o Internacional B ou o Nacional A, por exemplo. Algumas igualavam Nacional A e Internacional A. Resumindo, Nacional A podia ser o estrato mais elevado (unido a Internacional A), o segundo mais importante, o quarto, ou um estrato sem valor algum. Pode-se notar a dificuldade de compreensão recíproca na avaliação que essa profusão de hierarquias gerava. Por esta razão o CTC deliberou, com o acordo das coordenações de áreas que nele não têm assento, estabelecer uma única hierarquia vertical, que comporta A-1 como seu topo, seguido de A-2, B-1 até B-5 e finalmente C, que é o estrato de valor zero. Evidentemente, o A-1 de uma área poderá ser mais exigente que o de outras, mas essa regra já existia. O importante é que passamos a ter uma linguagem comum.

2. Além disso, certas áreas povoavam muito um, dois ou três estratos. Determinada área, por exemplo, notou que 40% de sua produção era Nacional A e 45%, Nacional B, sendo pequena a diferença de peso entre os dois estratos. Em outras palavras, o Qualis acabava sendo pouco útil porque, com ou sem ele, a produção apresentaria os mesmos índices! Por isso, o CTC recomendou o preenchimento de vários estratos, se possível cinco, de modo que o Qualis satisfaça seu papel de poderoso sinalizador, em especial para os estudantes e jovens doutores, de quais são os periódicos mais importantes e quais, os menos, em que publicar. Repetimos que não há equivalência automática dos Qualis de uma área para outra e que as áreas de produção mais consolidada não serão prejudicadas ao ocuparem, com seus periódicos de qualidade, também os estratos B. E acrescentamos que todo esse processo se desenrolou em diálogo bastante respeitoso.

3. Para concluir o que tange ao Qualis de Periódicos, decidiu-se que ele será apreciado pelo CTC. Isso nunca aconteceu antes. Haverá assim uma discussão aberta sobre ele. Assim se aumenta a transparência e a legitimidade do sistema.

4. Já no que diz respeito à Ficha, constatou-se, durante a Avaliação Trienal 2007, que alguns itens ou mesmo quesitos não atendiam ao propósito de classificar segundo a qualidade. Em razão disso, o CTC deliberou que os dois quesitos centrais, que se referem à Produção Intelectual e ao Corpo Discente (ou produção dos discentes), passariam a ter o peso de 70% na Ficha. São quesitos de resultados. Já o quesito Corpo Docente, que é um quesito de insumos ou de processos, teve reduzido o seu peso. Desta forma, se amplia a importância do que o programa gera, em termos de produção científica e de formação de mestres e doutores. Um programa muito bom na sua composição, mas de baixa produção científica ou pequena formação de alunos, não terá a mesma nota que um programa que se destaque nestes dois quesitos centrais. Assim, sobretudo, se reconhece maior liberdade às formas de organização dos programas. Se o resultado é bom, não é preciso seguir regras de funcionamento interno que podem servir a uma área e não a outra.

5. Também se debateu longamente a prioridade que deve ser dada, no entendimento consensual, aos resultados sobre os processos. Assim se tornou possível gerar uma série de itens que serão mais ou menos iguais em todas as áreas. Cada área poderá modificar o seu peso, alterar seu enunciado (o que lhe confere muita liberdade), mas saberemos o que estamos comparando de uma área para outra. Portanto, a ficha aprimorada será um instrumento de transparência muito importante para os programas e, queremos cada vez mais, para seus docentes e alunos, que devem ser cada vez mais informados sobre a avaliação.

6. No que respeita ao Qualis de Livros, ele representa o reconhecimento solene e formal, pela Capes, de que a publicação como é praticada em cerca de 22 áreas do conhecimento (das nossas 47), ou seja, em livros, deve ser considerada na avaliação. Devem ser valorizados os livros, desde que sejam avaliados. Foram anos de experiências, que culminaram no entendimento de que os livros serão avaliados em duas etapas básicas.

Uma primeira etapa examina o que chamaríamos “aspectos externos” da obra: sua natureza (tese, dissertação, coletânea), sua difusão (local, nacional) etc. As obras que tenham a melhor pontuação nesta etapa serão submetidas a uma segunda, em que serão lidas e se gerará um parecer indicando um valor para elas. Este é o princípio geral, que permitirá avaliar uma produção que é muito mais difícil de mensurar que a de periódicos, mas que deve ser apreciada, porque em várias áreas se reveste de grande importância. Nas próximas semanas, as áreas em questão completarão suas normas a respeito e as submeterão ao CTC.

Resumindo, as iniciativas tomadas aumentam a transparência do sistema, tornam-no mais objetivo, incluem tipos de produção até agora menos considerados e permitem que a comunidade participe e compreenda mais o processo de avaliação. Em breve, esperamos fornecer mais informações a respeito.

Atenciosamente,

Renato Janine Ribeiro
Diretor de Avaliação
CAPES/MEC

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14/08/2008 // A ciberguerra

Ataque no ciberespaço precedeu invasão russa à Geórgia

John Markoff - Uol

Semanas antes das bombas físicas começarem a cair sobre a Geórgia, um pesquisador de segurança na suburbana Massachusetts assistia um ataque contra o país no ciberespaço.

Jose Nazario, da Arbor Networks, em Lexington, notou um fluxo de dados direcionado aos sites do governo georgiano, contendo a mensagem: conquiste + amor + na + Rússia (no original: win + love + in + Rusia)

Outros especialistas de Internet nos Estados Unidos disseram que os ataques contra a infra-estrutura de Internet da Geórgia tiveram início já em 20 de julho, com barragens coordenadas de milhões de pedidos -conhecido como ataque distribuído de negação de serviço, ou DDoS- que sobrecarregou certos servidores georgianos.

O governo georgiano culpou a Rússia pelos ataques, mas especialistas disseram que não estava claro.

"Aquilo poderia ser uma ação russa indireta? Sim, mas considerando que a Rússia já deixou de jogar leve e está usando bombas reais, ela poderia ter atacado alvos mais estratégicos ou eliminar a infra-estrutura fisicamente", disse Gadi Evron, um especialista israelense em segurança de rede que auxiliou na reação ao ciberataque à infra-estrutura de Internet da Estônia, em maio passado. "A natureza do que está acontecendo não é clara."

Os pesquisadores da Shadowserver, um grupo voluntário que monitora atividade maliciosa na rede, informou que o site do presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, foi retirado do ar por 24 horas devido a múltiplos ataques DDoS. Os pesquisadores disseram que o servidor de comando e controle de onde partiu o ataque, situado nos Estados Unidos, entrou online várias semanas antes do início do ataque.

Na verdade, o ataque de julho pode ter sido um ensaio para uma ciberguerra plena assim que os disparos começassem entre a Geórgia e a Rússia.

Segundo especialistas técnicos em Internet, foi a primeira vez que um ciberataque coincidiu com uma guerra real. Mas provavelmente não será a última, disse Bill Woodcock, o diretor de pesquisa da Packet Clearing House, uma organização sem fins lucrativos que monitora o tráfego na Internet. Ele disse que os ciberataques são tão baratos e fáceis de organizar, com poucas impressões digitais, que quase certamente permanecerão uma característica das guerras modernas.

"Ele custa cerca de 4 centavos por máquina", disse Woodsock. "É possível financiar toda uma campanha de ciberguerra pelo custo de substituir uma esteira de tanque de guerra, de forma que seria tolice em não realizá-la."

A Shadowserver viu o ataque contra a Geórgia se espalhar para computadores de todo o governo após as tropas russas invadirem a província georgiana da Ossétia do Sul, no domingo.

Nazario disse que os ataques pareciam ser politicamente motivados. Eles prosseguiram na segunda-feira contra os sites de notícias da Geórgia, segundo Nazario. "Eu estou vendo ataques contra o apsny.ge e news.ge neste instante", ele disse.

Os ataques foram controlados de um servidor baseado em uma empresa de telecomunicações em Moscou, ele disse. Por sua vez, os ataques do mês passado vieram de um computador de controle baseado nos Estados Unidos. Aquele sistema foi posteriormente desativado.

Os ataques de negação de serviço, que visam impedir o acesso a um site de Internet, começaram em 2001 e foram aperfeiçoados em termos de poder e sofisticação desde então. Eles costumam ser realizados por centenas ou milhares de computadores pessoais infectados, tornando difícil ou impossível determinar quem está por trás de um ataque em particular.

O site do presidente da Geórgia foi transferido no fim de semana para uma operação de Internet nos Estados Unidos, dirigida por um georgiano. A empresa, a Tulip Systems Inc., com sede em Atlanta, é dirigida por Nino Doijashvili, que estava na Geórgia no momento do ataque. Dois sites, president.gov.ge e rustavi2.com, o site de uma proeminente emissora de TV georgiana, foram transferidos para Atlanta. Executivos de segurança de computadores disseram que os sites de notícias também foram atacados.

Na segunda-feira, os executivos da Renesys disseram que grande parte das redes georgianas não foram afetadas, apesar dos ataques a sites individuais. As redes apareciam e desapareciam à medida que a eletricidade era cortada e restaurada em conseqüência da guerra, eles disseram.

Um pesquisador da empresa notou que a Geórgia era dependente tanto da Rússia quanto da Turquia para se conectar à Internet. Como resultado da interferência, o governo georgiano começou a postar notícias em um site de blogs do Google, georgiamfa.blogspot.com. Separadamente, havia relatos de que a Estônia estava enviando assistência técnica ao governo georgiano.

Há indícios de que ambos os lados no conflito -ou simpatizantes- estavam envolvidos nos ataques visando bloquear o acesso à Internet. Na sexta-feira, o site de língua russa Lenta.ru informou a ocorrência de ataques DDoS contra o site oficial do governo da Ossétia do Sul, assim como ataques contra a RIA Novosti, uma agência de notícias russa.

Os pesquisadores de Internet da Sophos, uma empresa de segurança de computadores com sede no Reino Unido, disseram que o site do Banco Nacional da Geórgia foi desfigurado a certa altura. Imagens de ditadores do século 20, assim como uma imagem do presidente da Geórgia, Saakashvili, foram colocadas no site.

Especialistas técnicos em Internet disseram que a presença georgiana na Internet era relativamente pequena em comparação a outros ex-Estados soviéticos. O país tem cerca de um quarto do número de endereços de Internet da Estônia ou da Letônia, segundo Woodcock, o diretor de pesquisa da Packet Clearing House.

Com apoio dos Estados Unidos, a Geórgia está em processo de concluir uma rede de fibra ótica de 1.400 quilômetros sob o Mar Negro, conectando sua cidade portuária de Poti a Varna, na Bulgária. A previsão é de que a conexão deverá ser concluída em setembro.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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13/08/2008 // Webjeitinho

O 'jeitinho' chegou à grande rede

Daniel Pinheiro - Carta Capital

Durante a apuração da reportagem O Brasil cai na rede, publicada na edição 508 e que tenta explicar os impactos sociais e econômicos produzidos por metade da população brasileira a navegar na internet, CartaCapital ouviu uma série de especialistas em diversas áreas relacionadas à grande rede.

Alguns desses especialistas deram pistas sobre um fenômeno interessante e bastante particular: a existência de um possível “jeito brasileiro” de se navegar pela web.

Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, foi talvez a fonte mais enfática ao indicar uma apropriação e transformação das tecnologias disponíveis na rede por parte dos internautas brasileiros.

Para Coutinho, um estudioso das relações de interatividade entre usuários de ferramentas da chamada Web 2.0 –blogs, redes sociais, sites colaborativos, entre outros–, esse “jeito brasileiro” pode colocar o Brasil em uma posição de vanguarda em alguns aspectos da rede.

Em entrevista concedida à CartaCapital, que transcorreu em clima de conversa descontraída, Coutinho tenta explicar melhor o que significa esse fenômeno da presença maciça do brasileiro na internet.

Conceito de internauta e a possibilidade de 50% dos brasileiros estarem na rede
O que é internauta? é alguém que usa a internet uma vez a cada três meses (definição de todas as pesquisas de quantidade de usuários), uma vez na vida ou usa todo dia? Apenas 18% dos brasileiros, pela pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no fim de 2007, utilizam a internet diariamente (entre a população de maiores de 10 anos de idade).

Temos que fazer uma série de discussões para chegarmos aos tais 50% dos brasileiros usando a internet, mas já chegou a hora de pararmos de pensar a internet como um fenômeno simplesmente numérico, e começarmos a olhá-la como um fenômeno qualitativo e comportamental.

Barateamento do equipamento e fenômeno das lan houses

Mas se seguirmos falando no fenômeno simplesmente numérico, o que ocorreu nos últimos anos que explica esse crescimento é: redução brutal do custo de acesso e redução brutal do custo do computador, estimulada pela desvalorização do dólar. Exemplo prático é o preço de um equipamento de entrada, básico em 2004, 2005, estava na faixa de 2 mil dólares. Hoje, esse mesmo equipamento custa cerca de 1.100, 1200 reais. Se esse fenômeno continuar, e o ritmo de crescimento o for mantido, é possível que atinjamos os tais 50% de acesso à internet.

Qualquer que seja o instituto que você pegue, a internet no Brasil cresce, e cresce em uma proporção impressionante. Aonde cresce o acesso? Nas lan houses, e a lan house é um fenômeno de crescimento tanto quanto é social. O acesso cresce baseado no barateamento dos custos, o que possibilitou a muitas pessoas levarem o computador para dentro de casa, mas mesmo aqueles que não conseguiram fazer isso, têm a possibilidade de usar a lan house para acessar. Não existe um estudo que determine o número de lan houses no Brasil, mas dá para afirmar, baseado em pesquisa pessoal minha que em Heliópolis (bairro da periferia de São Paulo, onde fica a maior favela da capital paulista) são 19 lan houses em 2007.

Então há essa explosão de acessos em espaços públicos, mas que são privados, muito por conta deste barateamento do equipamento. Agora esse fenômeno vai continuar assim? Depende de uma série de fatores, dos quais o mais determinante é a economia brasileira. Se ela continuar como está, se existir renda para o jovem ter o dinheiro que paga as horas usadas na lan house, ou então para os pais desses jovens investirem dinheiro em uma prestação para comprar um equipamento em parcelas, então esse crescimento explosivo continua.

O computador como eletrodoméstico

O computador virou um eletrodoméstico. E isso por dois fatores: ele é uma alternativa de lazer muito barata e muito atraente em um país que carece de espaços públicos e gratuitos de lazer. É um clichê, mas a conta e o exemplo são verdadeiros: se você for com uma namorada, uma amiga, sair de casa, pegar um cinema e comer um lanche, vai gastar 10 reais do estacionamento, 30 dos ingressos e mais uns 40 na comida, vai gastar 80 reais para uma diversa limitada, de algumas horas. Com esse mesmo valor, você paga um mês de acesso à internet de banda larga tranquilamente.

Com esse valor, você está no mundo, inclusive se relacionando.

O segundo ponto é a questão da segurança urbana. Se eu fosse um adolescente nos anos 1970 e passasse a noite inteira na frente da televisão, me chamariam de louco, meus pais me mandariam ir para a rua, me divertir, conhecer pessoas.

Hoje em dia com todos os problemas de violência urbana, e esse é um dado que não aparece só na sociedade brasileira, está presente de maneira global, há uma tendência das pessoas se insularem, ou seja, as pessoas cada vez mais circulam dentro de espaços privados, como a casa, e nesse tipo de espaço o computador assume um papel cada vez mais central, a ponto de ficar na área nobre da casa, que é a sala, nos domicílios de menor renda.

Assim, o computador se torna um item de primeira necessidade em termos de lazer, tanto mais na periferia, onde a falta desses espaços públicos e a presença da violência urbana é ainda mais aguda.

A grande história da internet brasileira

Então há o barateamento dos equipamentos, a ausência de espaços públicos, a falta de segurança e essa nova posição do computador na casa das pessoas e a variedade coisas que ele proporciona fazer nos leva a um novo fenômeno, que é a transformação do equipamento em uma máquina de relacionamento, de construir relacionamentos, com pessoas, com empresas, com conteúdo.

E essa é que eu acho que é a grande história da internet brasileira. Por quê? Porque em primeiro lugar o Brasil tem uma utilização de sites de comunidades, basta ver como somos líderes em uma rede social como o Orkut.

Então o brasileiro tem grande propensão a utilizar sites de comunidade. Segundo dados do Ibope NetRatings, o brasileiro passa em média cinco horas por mês em redes sociais, contra duas horas da média mundial. As pessoas investem cada vez mais nesses relacionamentos digitais –eu não gosto da palavra “virtual”, porque ela dá idéia de que é algo menor que o real, e não é esse o caso— e em especial para os jovens, esses espaços são tão importantes para construir relacionamentos como o são os espaços “reais”.

Para a “geração y”, os jovens adultos de 18 a 25 anos, o mundo digital, o relacionamento digital, é tão “real” quanto seus correspondentes no “mundo real”.

O que vemos na internet brasileira não é apenas a explosão do uso, mas um tipo de uso que é muito particular e diferente do que havia antes.

E é esse uso que nos faz parar para pensar se os tais 50% são a grande história da internet brasileira. Porque isso não é inédito, já aconteceu nos Estados Unidos e em todos países em que a internet já é um meio de comunicação de massa.

E eu acho que temos um fenômeno quantativamente igual, mas qualitativamente muito diferente. E isso tem implicações profundas na sociabilidade das pessoas, no mundo da política e também nas empresas. E isso tanto na questão da imagem das empresas e como elas se comunicam com o mundo, com a imprensa.

Na verdade, a internet no Brasil explodiu
quantativamente em um período em que a própria rede estava sofrendo mudanças de paradigma. Quando a internet começou a ser explorada comercialmente, em meados dos anos 1990, ela era basicamente o modelo broadcast, uma emissão de uma revista, de um jornal, para falar diversas pessoas. E a mudança de paradigma da internet é a passagem do modelo broadcast para um modelo que eu chamo de socialcast.

O que é o paradigma do socialcast? É a interação de conteúdos, são os 11% de internautas postando comentários em notícias que estão na pesquisa Datafolha/F/Nazca, que eram apenas 3% em 2007.

No Brasil começa a se desenhar a possibilidade de consolidação de um novo modelo de internet, não é o caso de liderar a onda, porque não temos o domínio da tecnologia, mas temos a apropriação social das tecnologias, e isso chama a atenção de empresas no mundo inteiro.

Um exemplo dessa apropriação é o que sofreu a Volkswagem aqui no Brasil (com o caso do banco rebatível do Fox, que poderia provocar cortes graves nas mãos de quem o operasse). Digite “Fox o carro assassino” no YouTube e veja o que há? Uma reunião de comerciais de televisão, reportagens, pronunciamentos de porta-vozes da empresa, esculhambando a Volkswagen. E são 500 mil visualizações, em uma montagem que juntou todas as propagandas e os investimentos em marketing da montadora de milhões e milhões de reais, que acabam todos publicados na rede, combinados em uma máquina com programas gratuitos e que não custou mais do que, digamos, dois mil reais.

Esse é o fenômeno socialcast, que tem impactos sociais, comportamentais, mas principalmente, e isso é que acaba fazendo a diferença, econômicos. Pesa no bolso da gigante a iniciativa do pequeno.

Senso de comunidade e herança da “latinidade”
E aí começamos a entrar novamente na questão das comunidades, e para exemplificar isso, esse senso de comunidade do internauta brasileiro, mais uma vez apelo para uma pesquisa do Ibope/NetRatings, divulgada em janeiro de 2008 e que trata da porcentagem de usuários residenciais que participam de sites de comunidades, e o Brasil é o líder, com 78,4%.

E tirando o Japão, que é a exceção que confirma a regra e tem 73,7% na segunda posição, são países latinos que completam os cinco primeiros, pela ordem: França (62,9%), Itália (62,7%) e Espanha (59,9%).

E os países anglo-saxões estão na parte de baixo da tabela: Reino Unido (57,7%), Estados Unidos (57,3%), Austrália (53,2%), Suíça (38,9%) e Alemanha (35%).

Perceba como essa informação é peculiar: estamos falando da vanguarda da internet, o uso de redes sociais, um baluarte da chamada Web 2.0 e acabamos reproduzindo um estereótipo velhíssimo, o da sociabilidade dos latinos, aquela coisa gregária, de aproximação, de menos formalidade, oposto à suposta frieza dos anglo-saxões. Estamos reproduzindo no século XXI um conceito que vem de centenas de anos.

Por isso que eu te digo que temos aqui um modelo peculiar de usar a internet, que confirma esse mito da sociabilidade latina. Não é o caso de se empolgar com essa herança histórica, já que existem outras variáveis muito importantes para a criação deste que pode ser um jeito brasileiro de usar a internet, como o barateamento dos equipamentos, a questão da violência urbana. Mas é inegável que todos esses fatores estão construindo um jeito brasileiro de acessar a internet, e que já está chamando a atenção de outros países.

A tecnologia como arma

É fácil medir o impacto desse jeito comunitário do brasileiro usar a internet e suas ferramentas, de aproveitar o tal do mashup –que é a combinação de diversas fontes de informação para recriar um conteúdo, como no exemplo do Fox. Vejamos o caso do Ronaldo Fenômeno. Bastou um travesti equipado de um telefone celular fazer um pequeno vídeo com o Ronaldo na frente do motel e subir para o YouTube que passou a ser muito visualizado. Ótimo, já seria um exemplo emblemático, mas vamos além.

A Rede Bandeirantes pega estas imagens que estão no YouTube e as exibe em sua reportagem colocando o crédito lá no gerador de caracteres: “Conteúdo retirado do YouTube”. Quer dizer, uma empresa de comunicação de grande porte, com orçamento de milhões e mais milhões de reais para o seu jornalismo acaba tendo que apelar para o material produzido por um celular que custou, não sei, 300 ou 400 reais?

Pára por aí? Não, não pára. Porque alguém gravou essa reportagem da Bandeirantes para o meio digital e fez o quê? Jogou no YouTube novamente! E essa reportagem da tevê, que teve de valer-se de conteúdo produzido pelo travesti que estava lá no momento crucial da história, foi parar lá no YouTube, apropriada por um outro internauta. E esse vídeo teve mais de 400 mil visualizações. Dá para afirmar que são mais de 400 mil pessoas que o assistiram? Não, mas dá para afirmar que não é muito menos que isso.

E é o que me faz afirmar que essa maneira comunitária, colaborativa do brasileiro de usar a rede é a “grande história” da internet no País. Mais uma vez: quantativamente, o fenômeno é impressionante, mas é no qualitativo que ele pode fazer a diferença.

Outra lição fundamental que esse episódio dá para políticos, para o mundo dos negócios, para empresas de notícias: o celular virou uma arma.

Começo do fim da “era dos discursos” e a mudança do “líder de opinião”

Nós estamos vendo o começo do fim da era dos discursos, e isso passa muito pelo o que fazem atualmente na imprensa de “papel”. Eu, como professor na pós-gradução, também sofro com isso, venho com uma aula preparada, com um discurso preparado, para transmitir aos alunos. Isso daria certo 5, 10 anos atrás.

Hoje em dia, eu começo a falar sobre um assunto, apresento dados e os alunos começam a me confrontar, “não é bem assim professor, esses dados que você está citando foram atualizados ontem, eu li em um blog, e os seus já não fazem sentido”.

Neste exato momento, o poder econômico, o poder intelectual, o poder da imprensa tradicional, estão em cheque com a Web 2.0. Se essa revolução que alguns chamam de sociedade informacional vai abalar mesmo essas instituições tradicionais, eu não sei te responder, ainda estamos no campo das hipóteses.

Quanto à questão específica da imprensa, dessa discussão sobre o fim do papel, do suporte físico, eu acredito que isso não vai acontecer tão cedo, e talvez nunca aconteça.

O que eu tenho mais certeza que está mais perto do fim é o atual modelo das publicações de papel, que dependem desse formato “imobiliário”, de venda de espaços publicitários –você já parou para pensar que é isso que jornais e revistas fazem, vender quadradinhos do seu “latifúndio”?

Outra discussão que a Web 2.0 traz é a questão de medir qual é a relevância de um determinado site na internet, seja ele um portal de notícias, um blog, um perfil em uma rede social. Não adianta, a audiência já ficou para trás, ela não é mais tão relevante assim, é querer medir o novo com a régua antiga, da publicidade massificada, de quantidade.

É muito mais importante medir a influência que tem uma determinada notícia, um determinado post, uma determinada comunidade em uma rede social. Na minha opinião, é muito mais significativo ver o numero de replies, de quantas vezes este conteúdo foi reproduzido em outros sites, em outros blogs, em outras comunidades.

Em quem você acreditaria mais na hora de pedir informação para, por exemplo, comprar um carro? No seu amigo que é completamente fanático por carros, que lê tudo sobre o assunto, compra todas as revistas, consulta várias fontes ou na propaganda que você viu no caderno de classificados? Eu vou ouvir o meu amigo. Acho que muita gente fará o mesmo. E se calhar desse seu amigo ter um blog, onde ele fala sobre esse assunto? Você vai desconsiderá-lo por ser um “blog”? Não acredito.

Vamos mais além ainda: e se ele for um amigo que você só conhece por meio digital? Vai dar menos valor à opinião dele? Mais uma vez, eu não daria menos valor. E é aí que o tema se interliga novamente, voltamos à história de sociabilidade de construir relacionamentos digitais que tem o mesmo peso que os “reais”.

E aí tocamos em outra questão que tangencia as mudanças da Web 2.0: o líder de opinião terá outro perfil.

No modelo antigo, o modelo de líder de opinião era o que eu sou para você hoje nesta entrevista. Você me procurou porque sabe que trabalho em uma empresa grande, tenho exposição na mídia, estudei sobre o assunto que você quer falar, você me reconhece como uma referência. E veja, no mundo analógico, era a tendência que esse líder fosse uma pessoa com todas essas referências, porque era caro ter a opinião de um outro “especialista”.

Você teria que se deslocar para falar com essa pessoa, você teria que procurá-la, ver se ela existia. Teria que pagar o custo de se alimentar de informação relevante, seja em jornal, revista, congressos, cursos, o que seja.

Agora não. Agora o seu amigo, aquele que sabe tudo de carros, tem milhares de fontes digitais e gratuitas para se informar. E se ele souber processar essas toneladas de informação e oferecer para os outros uma opinião relevante e jogar isso na internet, ele se tornará um líder de opinião, muito mais próximos para milhões de pessoas do que, por exemplo, eu para você nesta entrevista.

Impactos reais da maneira brasileira de usar a rede na economia

Eu não vejo essa maneira brasileira, colaborativa, conseguir mudar a economia em um curto prazo. Aliás, as próprias matérias que lemos em revistas de economia, de economistas respeitados, pode-se ver que a vocação do nosso País ser é um grande produtor de commodities.

Agora, a gente pode, claramente, ter alguns ganhos em outros setores de uma forma surpreendente. Você ver que a economia brasileira em dez anos, em quinze anos, será uma economia tecnologizada, que o setor informacional vai ter na economia brasileira a importância que tem, por exemplo, na economia da Califórnia? Isso não.

Repito: a grande vocação do País é para commodities, beneficiamento de commodities e algumas ilhas de excelência, Embraer, equipamento de perfuração de poço de petróleo em profundidade, etc. e tal. Sem dúvida, teremos ilhas de excelência em internet, internet 2.0, software... Já temos isso. Agora, que isso vá transformar a economia brasileira? Não vejo isso acontecendo num espaço de pelo menos uma ou duas décadas. Não vejo isso acontecer. Acho que podemos ter aqui centros de excelência de produção de games, coisas localizadas.

Você pode ter essa evolução localizada, em alguns pólos muito específicos, no eixo Campinas–São Paulo, alguma coisa assim. Não na economia como um todo.

O peso do investimento que o governo terá que fazer na educação

O governo tem que investir na educação tecnológica, é claro, isso é possível, deve ser feito até para manter o status quo.

Claro que não seremos vanguarda, não há condições pra isso, não conseguiremos, no estado que estamos, avançar mais que os demais países, mas pelo menos este investimento daria capacidade da gente se manter pari passo com eles.

Há um comparativo falso que as pessoas fazem quando se fala sobre educação. Todo mundo fala: “a Coréia fez uma evolução na educação”. Mas a Coréia tem quantos habitantes, qual o tamanho do País? Você estende 400 km de fibra ótica e conectou a Coréia inteira. E aqui, se você estender 400 km de fio vai conectar o que a quê?

Um nível de investimento desse tipo não acontece de uma hora para a outra, ainda mais em um país com as dimensões e a quantidade de habitantes do Brasil. E há um princípio básico: quanto maior a inércia, ou seja, quanto maior a massa que você vem carregando, mais difícil de uma mudança acontecer.

Benefícios no uso predominantemente recreacional que os jovens fazem

Há muitos benefícios, claro, sem dúvida nenhuma. Até no uso 100% recreacional. O carinha que vai fazer seu perfil no Orkut, depois joga Counter Strike e passa a tarde toda “zoando” no MSN. Essas possibilidades todas de “zoar” dão a essas pessoas a chance de entrar em contato com outros modos de vida e outras formas de conhecimento que elas jamais teriam fora desse espaço.

Mas se você falasse para mim: “ah, vamos tirar as crianças das lan houses e colocá-las numa escola modelo com oito horas por dia”. Aí sim, vamos tirar da lan house no mesmo momento. Mas para colocá-las onde? Na frente da TV? Não vejo vantagem.

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13/08/2008 // Elementar, meu caro Bit